Fonte: Blog do Vespasiano
Texto: Impulso progressista.
Iniciando a série “Ídolos do Passado”, o IP entrevistou João Batista Conrado Silva, o Batista — para muitos, o melhor jogador de todos os tempos em Vespasiano. Desde o início da entrevista, percebemos em Batista uma pessoa em paz consigo mesma e com os que o cercam, demonstrando tranquilidade e equilíbrio emocional, características que definem um verdadeiro craque da pelota — e da vida.
Passemos à trajetória de Batista no futebol vespasianense e mineiro, bem como às suas opiniões sobre o esporte preferido dos brasileiros.
Batista deu seus primeiros chutes no juvenil do Vespasiano Esporte Clube, aos 15 anos de idade. Posteriormente, atuou pelo Azas, de Lagoa Santa, Sete de Setembro e Atlético Mineiro. Sobre o Azas, ele relembra: “No Azas jogavam funcionários do Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa. Formávamos uma grande equipe, disputamos campeonatos profissionais e fomos campeões de um Torneio Início com a participação de Atlético, Cruzeiro, América e outros grandes do futebol mineiro. Jogavam também no Azas meu irmão Marcílio, Aleixo, Aécio Rodrigues e João Araújo, todos de Vespasiano.”
No Sete de Setembro, Batista atuava em regime semiprofissional. Defendeu o clube em 1941 e voltou a fazê-lo em 1951. Durante a entrevista, enquanto mostrava fotografias e recortes de jornais, chamou atenção uma imagem da equipe do Sete de Setembro em partida contra o Botafogo do Rio de Janeiro, vencida por 3 a 1, com um dos gols marcados por Batista.
Há também uma fotografia de sua estreia no Atlético Mineiro. “Perdemos por 2 a 1 e, como sempre, todos caem em cima do estreante. Mas eu sempre tive cabeça fria”, recorda.
Pudemos ver ainda imagens de grandes equipes do Vespasiano Esporte Clube, um dos times mais respeitados do interior mineiro, temido até pelos grandes clubes de Minas Gerais. Há também fotografias de treinos em Caxambu, onde foi formada uma seleção do interior para enfrentar a seleção mineira, ocasião em que Batista foi convocado, além de diversos recortes de jornais destacando especialmente a equipe do Azas, bastante famosa à época, como demonstrava o tom entusiasmado das reportagens.
Batista era o que hoje se chamaria de jogador completo. Segundo seu companheiro de futebol e cunhado, João Araújo, “Batista era ótimo cabeceador, driblava e chutava bem e tinha um corpo muito firme. Não era qualquer um que o derrubava”.
O próprio Batista explicava: “É só saber a hora exata de firmar o corpo. Eu treinava bastante cabeceios e chutes. Hoje não há mais conjunto no futebol, justamente pela falta de treinos, principalmente no futebol amador. O que se vê é correria e cada um querendo fazer tudo por si próprio. Infelizmente, hoje as pessoas são obrigadas a viver para trabalhar, o que tira todo o tempo para se aperfeiçoar, seja no futebol, nas artes, na vida familiar ou em qualquer setor”.
As causas do baixo público nos estádios e campos e o esvaziamento do futebol também foram analisadas por Batista. “Antigamente, o campo estava cheio todo domingo, todas as moças iam ao campo. Hoje as opções são outras. A televisão oferece jogos dos campeonatos carioca e paulista; depois da criação do Mineirão, o futebol do interior caiu muito; a violência afastou os torcedores; os bons jogadores perderam o interesse em disputar campeonatos; e, finalmente, a ditadura implantada após 1964 cavou um fosso entre o povo e os homens públicos.”
Ele completa: “Os prefeitos, que antes eram próximos e apoiavam as iniciativas da comunidade, como o futebol, passaram a ser impostos à força. Isso desanimou a população, gerando afastamento. Até hoje sentimos essas sequelas. Para que o futebol amador volte a ter brilho, é preciso acabar com a violência e aproximar os homens públicos do povo. Isso vale para tudo em uma comunidade”.
Sobre o futebol brasileiro, Batista foi enfático: “Uma hora a coisa vai arrebentar. Os times não aguentam viver com as rendas atuais dos campeonatos. Não há como contratar bons jogadores, ainda mais disputando campeonatos como o mineiro. E quando não há público, o jogador — que é um artista — não rende o que poderia. Todo artista gosta dos aplausos da plateia. Veja a Itália, onde o futebol virou febre graças ao bom planejamento, à coibição da violência e ao investimento em craques”.
Para finalizar, Batista deixou uma mensagem aos mais jovens: “Uma das únicas tapeações sadias acontece no futebol. Tapear o adversário com dribles, fingir que vai ali e não ir. Nada de violência. Não se deixar influenciar pela torcida ao tomar um drible. É preciso educação e humildade para não querer machucar quem driblou você. Basta derrubá-lo para evitar o gol, não é preciso ir na canela. Isso é atraso”.
Aos mais velhos, deixou também sua reflexão: “Espero que estejam satisfeitos com o que fizeram pelo futebol de Vespasiano e com a própria vida. Não sou o melhor, como disse o IP. Todos têm sua importância. O mais importante é o conjunto, a união, do goleiro ao ponta-esquerda. Desejo que todos estejam tão felizes quanto eu estou”.
Batista é casado com dona Nelma Silva e é pai de José Antônio, Rodrigo, Samuel e César.

