Por: Marcello Viana
Em 1991, o futebol amador de Vespasiano alcançou um de seus pontos mais altos. Em um campeonato marcado por equilíbrio técnico e rivalidades históricas, o Vespasiano Esporte Clube chegou à final do Campeonato Vespasianense para enfrentar o Independente Futebol Clube. O que se desenharia ao longo de dois jogos não seria apenas a definição de um campeão, mas um episódio que passaria a ocupar lugar central na memória esportiva da cidade.
Trinta anos depois, jogadores, dirigentes e torcedores ainda identificam aquela decisão como um divisor de águas na trajetória do clube.
O equilíbrio do primeiro confronto
O primeiro jogo da final, disputado no Estádio Ilvo Marani, terminou em empate sem gols. A partida refletiu o nível de preparação das duas equipes e a cautela imposta pelo peso da decisão. Segundo relatos de atletas do Vespasiano, o confronto inicial foi marcado por forte disputa no meio-campo e poucas concessões defensivas.
O empate transferiu toda a responsabilidade para o segundo jogo, que seria disputado no campo do adversário, cenário considerado desfavorável ao VEC. Na cidade o empate repercutia e torcedores e jogadores do Independente já davam como certo a conquista do título.
O jogo decisivo no campo do rival
O segundo confronto, realizado no Estádio Miguel Chalup, começou com vantagem para o Independente. Aos 15 minutos do primeiro tempo, Toquinho abriu o placar, colocando o time mandante à frente e aumentando a pressão sobre o VEC.
O ex-jogador Luís Santos, em depoimento, relembra o momento:
“No primeiro jogo a gente não foi tão bem, e no segundo, no campo do adversário, tomamos um gol que nos deixou bastante apreensivos.”
Apesar do cenário adverso, o Vespasiano manteve a organização. O técnico Núbio Gelmini reforçou a estratégia de concentração e competitividade, como recorda o zagueiro Nivaldo:
“Ele virou pra mim e falou: ‘Final de campeonato não se joga, se ganha. A gente vai lá pra ganhar’.”
A reação e a virada
Havia uma apreensão no ar. Eduardo Celestino, que vinha sendo apontado como o craque da competição, estava lesionado, e sua participação na decisão era tida como improvável. Durante toda a semana, a dúvida pairava sobre sua presença em campo. Graças a uma forte atuação do departamento médico, que trabalhou intensamente para recuperá-lo, Eduardo conseguiu ao menos figurar no banco de reservas. Ainda assim, sua entrada era incerta — até que, no segundo tempo, o técnico decidiu chamá-lo para substituir Lindário, em busca de uma reação.
No segundo tempo, por conta das substituição, o Vespasiano passou a ocupar mais o campo ofensivo, e aos 18 minutos, Eduardo marcou o gol de empate, um chute preciso da entrada da grande área, no cantinho do goleiro, mudando completamente o rumo da partida. O próprio jogador relembra o peso daquele momento:
“Eu tive a honra de participar daquele grupo maravilhoso. O gol ali reacendeu nossa confiança.”
Com o placar igualado, o jogo entrou em sua fase mais tensa. O Independente tentou sustentar o resultado, enquanto o VEC manteve a pressão. Aos 36 minutos do segundo tempo, veio o lance decisivo: Duro marcou o gol da virada, decretando o 2 a 1 e selando o título.
Luís Santos descreve o instante com alegria:
“Mantivemos a tranquilidade, conseguimos virar o jogo e fizemos a festa no campo do adversário.”
O apito final e a celebração
Com o fim da partida, o Vespasiano Esporte Clube confirmava a conquista do Campeonato Vespasianense de 1991. O capitão Gilberto Mariano foi o responsável por erguer a taça, fato que ele resume de forma direta:
“Tive o privilégio de, como capitão, levantar a taça de um dos melhores campeonatos de todos os tempos.”
A comemoração ultrapassou os limites do estádio. Jogadores e torcedores seguiram juntos até o centro da cidade, onde a conquista foi celebrada publicamente, simbolizando a forte ligação entre clube e comunidade.
O então presidente Silmar Rates recorda:
“Foi uma vibração indescritível. Todos se abraçando, chorando no meio do campo. Depois seguimos a pé até a praça, cantando o hino do Vespasiano.”
O impacto histórico da final de 1991
Décadas depois, a final do Campeonato Vespasianense de 1991 permanece como um dos episódios mais relevantes da história do Vespasiano Esporte Clube. Não apenas pelo resultado esportivo, mas pelo contexto: uma virada fora de casa, contra o principal rival, com forte envolvimento da torcida e da cidade.
O título consolidou uma geração de atletas e dirigentes e marcou o último grande troféu amador do clube, tornando-se referência permanente em sua identidade institucional.
Hoje, a decisão de 1991 segue sendo revisitada como um documento vivo do futebol vespasianense, um capítulo em que fatos, personagens e memória coletiva se unem para contar uma história que ainda define o VEC.
FICHA DO JOGO
PRIMEIRO JOGO:
Vespasiano 0 x 0 Independente.
Estádio: Ilvo Marani
SEGUNDO JOGO
Independente 1 x 2 Vespasiano
Estádio: Miguel Chalup
Arbitragem: Jefferson Alessandrino (FMF)
Gols: Toquinho (Independente/ 15m – 1ºT), Eduardo Celestino (VEC/ 18m – 2ºT), Duro (VEC/ 36m – 2ºT).
Escalações:
VESPASIANO EC
Rodrigo, Luís Santos, Nivaldo, Beto (C), Serginho; Lindário (Eduardo), Tião Fabiano, Neném; Beto (Bodão), kaká e Duro.
Treinador: Núbio Gelmini
INDENPENDENTE FC
Clênio, Cesinha, Vagner, Ricardo, Tigrão; Tatu, Virgílio, Nico; Fumo, Hebinho e Toquinho.
ELENCO VESPASIANO ESPORTE CLUBE:
BETO DE NINIO, BODÃO, CASINHA, DURO (EM MEMÓRIA), EDUARDO CELESTINO, TIÃO FABIANO, GILBERTO MARIANO, JUNINHO, KAKÁ, LINDÁRIO, LUIZ SANTOS, NENÉM BODINHO, NIVALDO, RODRIGO ROCHA, SERGINHO, TIÃO.
ZÉ FUBÁ (MASSAGISTA)
DIRETORIA
SILMAR RATES (PRESIDENTE)
EDILSON PEREIRA DE CARVALHO – ZIZA (DIRETORIA)
ZÉ BICALHO (DIRETORIA)
Trecho de jornal da época:
Esportivas, coluna do Chico da Cemig:
1991 um ano de alegria para a grande torcida do Vespasiano E.C., Campeão na categoria Juniores, quando venceu o excelente time do União. Domingo, dia 29 de Setembro último, um grito que estava preso na garganta dos Vespasianenses há 19 anos, saiu com a conquista do título amador, com a vitória de 2 a 1, de virada, sobre o tradicional rival, Independente, que acabou perdendo dentro de seu campo, depois de zero a zero no campo do Vespasiano.
Foi um clássico digno de uma decisão, onde teve de tudo, até a expulsão de Zé Fubá, massagista que sempre viveu pensando neste momento de festejar o título do amador.
Desde o dia do primeiro encontro com a primeira namorada, foi o dia em que o coração do Zé Fubá bateu mais forte, valeu até a surra que ele levou de torcedores do Independente.
Um título inesquecível, para este legítimo representante de Vespasiano na próxima Copa Itatiaia, uma nova conquista no pensamento dos Vespasianenses.
Parabéns ao jovem Presidente, Dr. Silmar pelo trabalho junto com toda diretoria, a todos ex-presidentes, ex-diretores que passaram pelo Clube fazendo um trabalho para que o título chegasse agora, com suor, sangue, lágrimas e sorrisos de uma torcida que nunca perdeu a esperança, mesmo vendo uma bandeira do Clube, de 50 anos ser queimada por alguns torcedores que não sabem o respeito que existe em uma bandeira, maior até que o título ganho na casa de um tradicional adversário.
À Polícia Militar, parabéns pelo bom trabalho de seu comandante em Vespasiano, e seus valorosos oficiais, sargentos, cabos e soldados, pela segurança desempenhada nas duas partidas decisivas.
Parabéns a todos participantes do Campeonato, que jogaram limpo e valorizaram o título ganho pelo Vespasiano E.C., que vive ainda a grande alegria do título conquistado, depois de 19 anos de espera.
Um capítulo a parte nesta conquista. Chama-se “Raimundinho”, uma vida dedicada ao Vespasiano, que cuida do Campo como se fosse sua casa. Humilde, franco, amigo, e que traz no peito todas as letras do VEC. Ao Raimundinho nossos agradecimentos e nossa homenagem, um legítimo representante do VEC.
A história do jogo e da virada do Campeão de Vespasiano.
Gols – 1º Tempo – Independente 1 a 0, gol de Toquinho.
2º Tempo – Eduardo Celestino e Duro para Vespasiano E.C.
Vespasiano: Carlão – Rodrigo, Luiz, Nivaldo, Beto Preto e Serginho; Lindário (Eduardo), Tião e Nené; Duro, Cacá e Beto depois Bodão.
Independente – Glênio, César, Ricardo, Vagner e Tião; Tatu, Virgílio e Nico; Fumo depois Mata Pato, Ebino e Toquinho.

