Por: Marcello Viana
Contribuições de Zé Bicalho, Paulinho e Juliano e Zé Marani
Contar a história do Campeonato de 1972 não foi uma tarefa simples. Por incrível que pareça, foi mais fácil reunir material sobre as equipes das décadas de 60 e 50, muito em função do capricho e do zelo de Valdir Soares, que guardou cuidadosamente recortes de jornais da época e, com isso, ajudou a preservar parte fundamental da memória do Vespasiano.
Já sobre 1972, o caminho foi diferente. Durante uma reunião da Liga de Vespasiano, deparei-me com a foto do time campeão invicto. Aquela imagem, silenciosa, mas carregada de significado, despertou em mim a necessidade de contar essa história e eternizá-la.
Observando com atenção, reconheci na imagem Geraldinho, Paulinho, Zé Cabeção e Eduardo, todos irmãos de Buião e integrantes daquela campanha memorável. Decidi, então, procurá-lo. Por termos mais contato, imaginei que ele poderia compartilhar alguma lembrança ou me indicar um caminho. Foi quando ele me passou o telefone de Paulinho.
Liguei. Do outro lado da linha, encontrei uma voz tímida. Para quebrar o gelo, tratei logo de parabenizá-lo pelos gols, ao que ele respondeu prontamente, com um riso contido: “Foram 15 em 15 jogos.” Mas, como acontece com tantas histórias guardadas pelo tempo, as lembranças ainda surgiam de forma fragmentada, dispersas na memória. Paulinho compartilhou informações importantes, reviveu alguns momentos marcantes, mas ainda restavam lacunas a preencher.
Na sequência, entrei em contato com Juliano, filho de Zé Marani, que naquele momento, coincidentemente, estava ao lado do pai. Ele também contribuiu com relatos valiosos, acrescentando peças importantes à reconstrução daquele quebra-cabeça histórico.
Mas foi Zé Bicalho, depois de muita insistência, devo confessar (rsrsrsrs), quem revelou os bastidores mais ricos daquela época. Líder de vestiário, figura central na formação do elenco campeão e testemunha direta dos acontecimentos, Zé trouxe detalhes, episódios e curiosidades que ajudaram a dar vida a uma das maiores conquistas da história do Vespasiano. Histórias que, a partir daqui, tenho o privilégio de compartilhar com vocês.
A campanha invicta que virou lenda no futebol amador
Por décadas, quando a conversa esquenta nas arquibancadas ou nas rodas de amigos em Vespasiano, um ano sempre reaparece com a força de um refrão inevitável: 1972. Não foi apenas um título. Foi afirmação, identidade e pertencimento. Foi o momento em que o Vespasiano Esporte Clube deixou de ser apenas competitivo para se tornar lendário.
O campeonato começou em 1971, atravessou a virada do calendário e só terminou no ano seguinte. Reuniu equipes de Vespasiano, Lagoa Santa, São José da Lapa, Pedro Leopoldo e Santa Luzia. O regulamento previa que os campeões de cada turno decidiriam o título geral em melhor de três partidas. Mas o roteiro tradicional não resistiu ao que aquele time estava destinado a escrever.
O Vespasiano venceu o primeiro turno. No segundo, empatou na liderança com o Santa Cruz, de Santa Luzia, e precisou disputar um jogo extra no campo do Sete de Setembro. Vitória por 3 a 2. Como já era campeão do turno anterior, sagrou-se campeão geral e invicto.
Sem finais. Sem derrotas. Sem discussão.
A família que ajudou a construir a história
Um detalhe curioso e profundamente simbólico ajuda a explicar a alma daquele time. Geraldinho, Eduardo, Zé Cabeção e Paulinho, peças fundamentais da campanha, eram irmãos do craque Buião, nome respeitado do futebol mineiro e figura importante na construção da história do Vespasiano Esporte Clube.
A ligação da família com o clube vinha de muitos anos antes. As raízes foram fincadas pelo patriarca, Seu Barão, jogador dos períodos primórdios do VEC. A influência era tamanha que os filhos carregavam naturalmente a alcunha do pai. Nas arquibancadas, era comum ouvir: “Geraldinho de Barão!”, “Paulinho de Barão!”, e assim por diante.
Mais do que um sobrenome informal, “Barão” era um selo de identidade. Representava tradição, pertencimento e continuidade. A família não apenas participou da história do VEC, ajudou a escrevê-la geração após geração; todos passaram da base ao time principal.
A construção do time: decisões que moldaram a conquista
Grandes equipes nascem nos bastidores. O Vespasiano de 1972 foi montado na insistência, na visão e na coragem de apostar.
Mozart, por exemplo, era adversário. Atuava pelo Sete de Setembro e chamava atenção pela técnica e confiança na lateral esquerda. Marcílio enxergou potencial ali. Vieram as conversas, a aproximação, o convencimento. Mozart mudou de lado e mudou também o equilíbrio defensivo do time. De rival, tornou-se peça-chave na engrenagem campeã.
Outra história marcante envolve Esquerdinha. Vindo de Belo Horizonte, onde atuava no Oriental ao lado de Marcílio e Mozart, sua chegada encontrou resistência do técnico Eduardo. O time estava encaixado. Mexer poderia significar risco, mas o elenco insistiu. Argumentou e garantiu que ele agregaria qualidade, que seu talento era a peça que faltava para subir o patamar da equipe.
Eduardo cedeu e o que veio depois foi história.
Mas Esquerdinha não teve vida fácil: começou no banco, estreou somente na terceira rodada contra o Itaú, foi entrando aos poucos e, quando assumiu a titularidade, transformou-se no craque do campeonato. Uma decisão difícil que se mostrou muito acertada.
Uma curiosidade sobre Esquerdinha tem relação com Aleixo, técnico do Independente. Zé Bicalho escutou quando o pai de Éder comentou com alguns torcedores: “Esse cara não vai jogar nada aqui em Vespasiano, não. Acostumado a campo de terra em Belo Horizonte, nesses gramados aqui não vai ver a cor da bola.”
Viu e fez todo mundo ver.
Foi o melhor jogador do campeonato.
Clássicos históricos
Os confrontos contra o Independente ficaram marcados como verdadeiros capítulos épicos do futebol regional. No Estádio Miguel Chalup, vitória por 2 a 1, com gols de Paulinho e Zé Cabeção após o time sair atrás no placar. No Estádio Ilvo Marani, a história se repetiu: mais uma vitória de virada, 3 a 2, com gols de Paulinho, Mozart e Carlão.
E houve um duelo que a torcida nunca esqueceu: Eduardo de Barão marcando Éder Aleixo. Eduardo era marcação dura, concentrada e constante. Nos confrontos contra o Independente, seus duelos com Éder Aleixo ganharam contornos de clássico particular (Curiosamente, Éder havia jogado no Vespasiano antes do campeonato. Ele e Carlão eram da mesma geração (1957), tinham apenas 14 anos em 1971 e já eram titulares do VEC. Mas quando o pai de Éder assumiu o Independente, levou o filho consigo).
Por outro lado, Eduardo, que originalmente era zagueiro, precisou ser deslocado para a lateral direita. Primeiro por conta da chegada do reforço Marcinho Araújo, que não se destacava apenas pelo futebol, mas também pela elegância e bom posicionamento. O jeito de jogar e o jeito de galã lhe renderam o apelido de “Perfumo”, em referência ao argentino Roberto Perfumo, que atuava no Cruzeiro naquela época. Depois, porque João Batista, contratado para assumir a lateral direita, teve problemas pessoais e precisou sair do time. Eduardo não decepcionou: fez um campeonato irretocável, com marcação firme e disciplina tática.
Ainda sobre a defesa, não tem como não se lembrar das intervenções seguras de Abdala, da liderança firme de Marcílio e da técnica apurada de Mozart, que davam sustentação à campanha invicta.
Mas o momento mais emblemático dos clássicos, sem dúvidas, foi a cobrança de falta contra o Independente que decidiu o clássico. Mozart se preparava para bater quando Carlão percebeu o goleiro adiantado. Com rapidez e talento irreverente, antecipou-se e cobrou por cima da barreira (lembrando Joãozinho na final da Libertadores de 1976). Golaço e explosão nas arquibancadas. Um lance que atravessou décadas na memória da torcida.
O meio que pensava e o ataque que decidia
Geraldinho de Barão foi recuado da camisa 10 para a função de volante. Mudança ousada. Em vez de perder criatividade, o time ganhou organização. Ele passou a comandar o ritmo da partida, equilibrando defesa e ataque como um maestro.
Carlão era categoria pura e inteligência rara, como no lance da falta contra o Independente, e na frente, Paulinho mantinha uma regularidade impressionante, marcando um gol por jogo (15 no total, um recorde imbatível até hoje). Uma aula de posicionamento, frieza e faro de gol. Pela ponta direita, Zé Marani dava velocidade; pela esquerda, Fortunato oferecia garra e mobilidade; e por todo o campo tinha Esquerdinha, que criava, driblava e infernizava as defesas adversárias.
Era um ataque que sabia acelerar e decidir qualquer partida.
Um time que ficou na memória.
O campeonato encerrado em 1972 não foi apenas vencido. Foi vivido intensamente.
Grande parte desses detalhes foi apresentada aqui graças aos relatos de Zé Bicalho. Ele recorda conversas antes de jogos, negociações, mudanças no elenco e histórias que ainda estão vivas na memória de muitos torcedores. Houve tensões, divergências, mas, sobretudo, houve união do elenco.
Segundo Zé, aquele Vespasiano tinha nível para disputar a Copa Itatiaia com grandes chances de ser campeão.
O time que entrou para a história tinha como base:
Abdala; Eduardo, Marcílio, Marcinho e Mozart; Geraldinho, Carlão e Esquerdinha; Zé Marani, Paulinho e Fortunato.
Técnico: Eduardo.
Ainda contribuíram: João Batista, Edvaldo, Lulu, Zé de Barão, Cid, Bicalho, Joãozinho e Edilson.
Era um time completo e, seguramente, nas palavras de Zé Bicalho, um dos maiores da história do futebol amador de Vespasiano.

