Por Marcello Viana
A bola foi lançada para Raimundo Leão, centroavante do Vespasiano. Ele dominou e sofreu a falta, próxima ao bico da área, pelo lado esquerdo do ataque. Zé Bicalho não precisou ser chamado. Naquele time, era ele quem normalmente se encarregava das cobranças. Ajeitou a bola, tomou distância e bateu forte.
A cobrança não foi direta. A bola quicou antes de chegar ao gol, ganhou altura e encobriu o goleiro. Entrou.
Era 5 de setembro de 1966, nove horas da manhã, e o Estádio Ilvo Marani acabava de assistir ao primeiro gol de sua história.
O Vespasiano venceria o Infantil do Frimisa por 1 a 0. Os jogadores correram para abraçar Zé Bicalho, a torcida fez festa e o novo estádio viveu seu primeiro grande momento de futebol. Fogos, locutor, torcida animada e muita gente espalhada pelo campo completavam o cenário. Era um dia de celebração em Vespasiano. O clube finalmente tinha uma casa própria.
Só havia um detalhe: ninguém sabia que aquela bola que acabara de balançar a rede seria lembrada seis décadas depois.
Zé Bicalho também não sabia.
Para ele, naquele instante, era simplesmente um gol. Um gol que ajudava o Vespasiano a vencer sua primeira partida naquele novo estádio. A dimensão histórica viria mais tarde, quando algumas pessoas começaram a discutir quem, afinal, poderia ser considerado o autor do primeiro gol do Ilvo Marani.
Mas essa discussão só faz sentido quando se conhece a história que existia antes daquela manhã.
Um estádio construído pela cidade
O Vespasiano chegava ao seu cinquentenário depois de passar cinco décadas utilizando um campo alugado na Rua Francisco Lima. O terreno pertencia a um português conhecido como Senhor Guilherme, que morava no Rio de Janeiro. Quando ele decidiu retomar a área para fazer um loteamento, o clube precisou encontrar uma alternativa.
Foi então que começou um dos maiores movimentos da história do Vespasiano Esporte Clube.
José Thomas Teixeira, o Seu Bodé, que havia sido presidente do clube no início da década de 1960, percebeu a necessidade de antecipar o problema. Era preciso comprar um terreno e construir um estádio próprio. Segundo a lembrança de Zé Bicalho, cerca de 50 vespasianenses contribuíram para que o clube pudesse adquirir a área onde hoje está o Estádio Ilvo Marani.
O terreno, porém, estava longe de ser o local ideal para um campo de futebol. Era um brejo, uma área desvalorizada no centro da cidade. Antes de se pensar em traves, alambrados ou gramado, era necessário colocar terra.
E foi aí que a construção do estádio deixou de ser apenas um projeto do Vespasiano para se transformar em um esforço coletivo da cidade.
Caminhões transportavam terra para aterrar o terreno. Gente trabalhava, ajudava e acompanhava o surgimento da nova casa do clube. E havia uma particularidade que Zé Bicalho faz questão de lembrar: entre aqueles que ajudaram estavam também torcedores de outros clubes, inclusive do Independente Futebol Clube, tradicional rival do Vespasiano.
Naquele momento, a rivalidade ficou de lado. O que estava sendo construído era maior do que uma disputa entre clubes. Era um estádio para o futebol de Vespasiano.
“Só quem viu sabe o trabalho que foi para erguer o estádio”, lembra Zé.
A frase resume uma obra que, para quem conhece o Ilvo Marani apenas como ele é hoje, pode ser difícil de imaginar.
A independência do Vespasiano
Durante 50 anos, o Vespasiano jogou em um campo que não lhe pertencia. O novo estádio representava, portanto, muito mais do que a possibilidade de disputar partidas em casa. Representava independência.
Era o clube deixando para trás a condição de inquilino e conquistando um patrimônio próprio.
O terreno havia sido comprado com a contribuição dos vespasianenses e destinado à construção do estádio. O trabalho envolveu muita gente e exigiu esforço coletivo para transformar aquele antigo brejo em um campo de futebol.
Quando finalmente ficou pronto, o estádio impressionou a cidade.
Ainda não havia arquibancadas como as atuais. O vestiário também era bastante diferente. Funcionava em dois pequenos cômodos ao lado do muro de Afonso Silva, com chuveiros e sanitários. Zé Bicalho não se recorda sequer se havia uma rouparia. Para vender bebidas e salgados, foi improvisado um espaço.
Mas havia um detalhe que chamava a atenção de todos: o alambrado.
A estrutura atrás dos gols tinha um formato curvo, deixando o público muito próximo do campo. Para Zé Bicalho, aquilo era uma novidade impressionante para a época. Segundo ele, o modelo lembrava o do Mineirão, inaugurado um ano antes, e era algo raro de se encontrar em estádios de futebol amador.
O Vespasiano, conta Zé, já demonstrava naquele momento uma visão de futuro.
O estádio não era apenas novo. Era moderno para os padrões daquele futebol.
E, naquela manhã de setembro, tudo estava preparado para apresentá-lo à cidade.
Uma manhã de festa
A inauguração do Estádio Ilvo Marani aconteceu em 5 de setembro de 1966, segundo a memória de Zé Bicalho. O dia fazia parte das comemorações do cinquentenário do Vespasiano Esporte Clube e foi tratado como um grande acontecimento na cidade.
O primeiro jogo estava marcado para as 9 horas da manhã. Vespasiano contra o Infantil do Frimisa.
O campo estava lotado.
A torcida queria conhecer o novo estádio e ver o clube jogar em sua própria casa. Havia fogos, locutor e toda a atmosfera de uma grande festa. A programação ainda reservava outro jogo para aquela tarde, às 16 horas, quando o time amador do Vespasiano enfrentaria um combinado do Atlético Mineiro.
E foi justamente essa programação de dois jogos que, anos depois, alimentaria uma curiosa discussão sobre o primeiro gol da história do estádio.
Mas, às nove da manhã, ninguém pensava nisso.
O que importava era a bola rolando.
A cobrança de Zé Bicalho
A partida contra o Infantil do Frimisa seguia seu curso quando Raimundo Leão recebeu um lançamento. O centroavante dominou a bola e sofreu uma falta perto do bico da área, no lado esquerdo do ataque.
Zé Bicalho era o cobrador.
A bola foi colocada no chão. Ele se posicionou e bateu forte.
O lance poderia ter terminado de muitas maneiras, mas acabou produzindo uma imagem que ficaria guardada para sempre na memória do clube. A bola quicou antes de chegar ao gol, encobriu o goleiro e entrou.
O primeiro gol do Ilvo Marani estava marcado.
O Vespasiano venceu por 1 a 0.
Os companheiros correram para abraçar Zé. A torcida comemorou. Houve festa.
Só não houve a percepção de que aquele era um momento histórico.
“Na verdade, tínhamos pouca noção de que esse era o primeiro gol da história do estádio e que teria tanta repercussão depois e até hoje”, conta Zé.
É uma das peculiaridades mais interessantes dessa história. O protagonista não entrou em campo sabendo que seria protagonista. Não houve preparação para aquele momento. Não houve uma comemoração especial. Não houve sequer a consciência de que, décadas depois, alguém ainda perguntaria como aquela bola havia entrado.
Foi apenas um gol.
Só que era o primeiro.
E apareceu a discussão
Algum tempo depois, surgiram os questionamentos.
Algumas pessoas passaram a dizer que o gol de Zé Bicalho não deveria ser considerado o primeiro gol do estádio porque a partida das 9 horas havia sido disputada pelo time Infantil. Para essas pessoas, o que deveria valer era o primeiro gol marcado pela equipe amadora do Vespasiano.
O problema é que a história também tinha um personagem para esse gol.
Naquela mesma data, às 16 horas, o time amador entrou em campo contra o Atlético Mineiro. E quem marcou o primeiro gol do Vespasiano naquela partida foi Nízio, jogador que teve passagens pelo Renascença e pelo Cruzeiro e que, no ano seguinte, seria campeão pelo VEC.
A partir daí, nasceram duas referências diferentes.
Zé Bicalho havia marcado o primeiro gol da primeira partida realizada no estádio.
Nízio havia marcado o primeiro gol da equipe amadora.
A discussão poderia ter virado uma disputa séria, mas Zé preferiu tratá-la com o bom humor típico de quem conhece bem o futebol.
Quando apareciam os “despeitados”, como ele próprio brinca, a resposta estava pronta:
“Meu filho, não teve o jogo? Não foi a primeira partida? Então eu sinto muito. Sou eu mesmo, não tem jeito não.”
É difícil encontrar uma maneira mais simples de explicar a situação.
A primeira partida começou às 9 horas.
Terminou 1 a 0.
E o gol foi dele.
O estádio que virou memória
Passaram-se os anos. O Ilvo Marani cresceu junto com o Vespasiano. Vieram as arquibancadas, os novos vestiários, novos jogadores, novos times e novas gerações de torcedores.
O campo que um dia foi um brejo tornou-se um dos símbolos esportivos da cidade.
Milhares de pessoas passaram por ali. Crianças que sonhavam em jogar futebol cresceram, atletas fizeram história, torcedores comemoraram vitórias e lamentaram derrotas. Cada geração deixou alguma coisa no gramado.
Mas a primeira página continua intacta.
Ela foi escrita por um jogador que não sabia que estava escrevendo história.
Zé Bicalho lembra que, no momento do gol, a alegria era a de qualquer jogador que acaba de marcar e ajudar seu time a vencer. O que ele jamais imaginava era que, meio século depois, continuaria contando aquele lance com a mesma alegria e emoção.
Hoje, porém, ele sabe exatamente o que aquele estádio representa.
Para Zé, o Ilvo Marani é a materialização do esforço de muita gente. É o resultado da contribuição daqueles vespasianenses que ajudaram a comprar o terreno, dos que trabalharam na construção e até daqueles que, embora torcessem para clubes rivais, ajudaram a transformar o brejo em campo de futebol.
Por isso, sua mensagem para as futuras gerações do Vespasiano é direta.
É preciso valorizar o estádio. É preciso conhecer a história. E, sobretudo, é preciso proteger aquilo que foi construído com tanto esforço.
“Dê muito valor ao nosso estádio. Jamais deixe que alguém ouse, pelo menos tentar vender o estádio, desapropriar, ou fazer alguma coisa para tentar tirar a propriedade do estádio do Vespasiano”, afirma.
Depois de tantos anos, a preocupação de Zé não é apenas com o campo.
É com a memória.
Porque um estádio pode ser reformado. Pode ganhar novas arquibancadas, novos vestiários, novos espaços. O gramado pode mudar. O alambrado pode ser renovado.
Mas há coisas que não podem ser reconstruídas.
Não se constrói novamente o dia em que uma cidade inteira ajudou a aterrar um brejo para fazer nascer seu estádio.
Não se repete o instante em que o Vespasiano deixou de ser inquilino e passou a ter uma casa.
E não se marca novamente o primeiro gol.
Foto1. Em pé: Pezão- Daniel- Nono Cavalinho- João Araújo- Murilo e Jairo- Aleixo. Agachados: ?, Gatoni, Nízio, Neném e Luiz Carlos Cunha.
Foto 2. Zé Bicalho (camisa Azul) em homenagem ao ex-jogador Adílio.
Foto 3. Zé Bicalho na época de Mascote.
Foto 4. Time Infantil do Vespasiano.
Foto 5 e 6. Zé no time campeão Amador de 1972.
Foto 7. Zé Bicalho e Marcílio.








